7. MEDICINA E BEM-ESTAR 7.8.13

O SUPER HORMNIO

Recentes estudos provam que a melatonina faz muito mais do que ajudar a dormir. Entre outros benefcios, ela auxilia no emagrecimento, combate a diabetes, controla a enxaqueca e protege contra os danos do mal de Alzheimer
Cilene Pereira e Monique Oliveira

Uma substncia fabricada naturalmente pelo organismo est despontando das pesquisas cientficas como uma espcie de super-remdio. De acordo com estudos realizados em todo o mundo, a melatonina, hormnio responsvel pela induo ao sono,  eficaz contra uma ampla gama de enfermidades. S para se ter uma ideia, ela ajuda a emagrecer, protege contra os danos causados pelo acidente vascular cerebral, auxilia no controle da hipertenso e da diabetes e reduz as crises de enxaqueca. Um dos ltimos benefcios descobertos foi o de diminuir a queda de cabelo provocada por causas genticas, a alopcia androgentica, conhecida como calvcie masculina.

Ainda no se sabe ao certo quais so os mecanismos que levam a esse espectro to grande de atuao. O que se descobriu recentemente e que ajuda a entender parte desse fenmeno foi que existem receptores sensveis  ao do hormnio em todo o organismo. Produzida pela glndula pineal  localizada no crebro  na ausncia da luz, at pouco tempo acreditava-se que a substncia agisse basicamente sobre os centros cerebrais envolvidos no controle do relgio biolgico, estimulando o sono. Por essa razo, suas indicaes mais conhecidas eram contra a insnia e outros distrbios associados ao sono, como o jet lag.

HERANA - Regina constatou que o hormnio passa de me para filho pelo leite materno

A descoberta de suas outras funes foi gradativa. Hoje, uma das reas nas quais  possvel encontrar conhecimento mais slido a esse respeito  a do cncer. A relao entre a melatonina e a doena comeou a ser mais investigada quando surgiram indicaes de uma associao entre o risco aumentado para a enfermidade e o trabalho noturno. A ltima delas foi divulgada h poucas semanas na edio online do British Medical Journal, uma das mais importantes publicaes cientficas do mundo. Realizado no Queens University, no Canad, um levantamento mostrou que mulheres que trabalharam em turnos noturnos por mais de 30 anos apresentaram duas vezes mais chances de desenvolver tumor de mama. Outra, divulgada no American Journal of Epidemiology, indicou a associao entre homens trabalhadores noturnos a risco elevado para cncer de prstata, pulmo, bexiga, reto, pncreas e linfoma no Hodgkin. Os resultados levantaram a hiptese de que a ligao entre as duas coisas  trabalho noturno e cncer  fosse a baixa produo de melatonina. A exposio  luz, mesmo  noite, pode induzir a um desequilbrio na regulao biolgica que propicia o desenvolvimento de tumores, disse  ISTO a cientista Marie-lise Parent, que comandou o estudo com os homens.

Outros experimentos avanaram na elucidao da questo. Apontaram que de fato o hormnio impede o crescimento das clulas tumorais, e por caminhos diversos. Ele protege o material gentico das clulas, afirmou  ISTO Antonio Soriano, da Universidade de Granada, na Espanha, autor de uma reviso recente sobre o tema. Entre outras aes, a melatonina impede que as clulas sofram com o estresse oxidativo  processo que danifica o DNA  e ajuda a interromper a formao de novos vasos sanguneos destinados a alimentar o tumor. 

Mecanismos como esses contribuem para explicar, por exemplo, o resultado obtido pelos pesquisadores da Faculdade de Medicina de So Jos do Rio Preto (SP) em relao aos efeitos do composto sobre o cncer de mama. Em animais, a substncia reduziu pela metade a forma mais comum da doena. Alm disso, o hormnio atenua efeitos colaterais da quimioterapia. Na Universidade de Granada, os cientistas criaram um gel  base de melatonina para proteger as mucosas do aparelho gastrointestinal da inflamao decorrente do uso de quimioterpicos.

Sua ao sobre doenas neurolgicas e psiquitricas tambm parece expressiva. O neurologista Mario Peres, da Universidade Federal de So Paulo, concluiu um trabalho no qual ficou demonstrada sua eficcia contra a enxaqueca. O mdico comparou por dois anos a eficincia e a tolerabilidade da suplementao de melatonina ao uso da amitriptilina, antidepressivo receitado para preveno das crises, e ao placebo. Participaram 196 pessoas, com dois a oito episdios de crises por ms. O mdico observou reduo de 2,7 pontos no uso de analgsicos e na frequncia e na intensidade das crises entre os que usaram melatonina; de 2,1 entre os que tomaram amitriptilina; e de 1,1 nos que usaram placebo. E ela no causou sonolncia diurna, ganho de peso, boca seca e outros efeitos observados com o antidepressivo, explica Peres.

Dos EUA vieram informaes sobre efeitos de proteo aos neurnios, algo importante, por exemplo, para impedir mais danos aps acidentes vasculares cerebrais. Uma pesquisa da Universidade do Sul da Flrida revelou de que maneira a substncia ajuda nessa tarefa. Uma de suas aes  estimular que clulas-tronco se especializem em neurnios, auxiliando, indiretamente, a repovoar reas nas quais houve morte neuronal. A melatonina protege contra danos cerebrais e dficits de comportamento resultantes do acidente vascular cerebral. Por esses motivos, vislumbramos seu uso clnico contra o problema, disse  ISTO Cesario Borlongan, coordenador do trabalho. Benefcios semelhantes foram observados contra o mal de Alzheimer. Pesquisa da Universidade de Barcelona, feita em cobaias, mostrou que uma dose diria do hormnio, combinada a exerccio fsico, retardou a progresso da enfermidade. Os resultados foram extraordinrios. O hormnio aumenta a capacidade de o neurnio se defender de danos, disse  ISTO o fisiologista Dario Acua Castroviejo, lder do estudo. Como sua produo natural costuma cair depois dos 40 anos, recomendo a suplementao a partir dessa idade.

SEM DOR - Pesquisa do neurologista Peres mostrou que a melatonina diminui a frequncia e a intensidade das crises de enxaqueca

Na Itlia, h pesquisas em curso a respeito do papel do hormnio sobre a depresso. Sabe-se que, na presena da doena, o ritmo circadiano, mediado pela substncia, encontra-se alterado. Um novo tipo de antidepressivo  a agomelatina  entrou no mercado com o objetivo de atuar sobre a melatonina e ajudar a regular o relgio biolgico. No Instituto Nacional de Sade italiano, cientistas buscam entender como o remdio atua. H interaes que o tornam eficiente. E acredito que os suplementos de melatonina devem ser usados com os antidepressivos, para melhorar a qualidade do sono dos pacientes, ponderou  ISTO Domenico De Berardis, coordenador do trabalho.

Por se tratar de um hormnio envolvido em operaes bsicas do organismo, a melatonina tambm tem ao sobre o metabolismo  propriedade que a torna eficaz para a perda de peso, segundo vrias pesquisas. Uma delas foi feita na Universidade de Granada, com animais, e revelou perdas considerveis entre as cobaias submetidas  suplementao. O resultado d suporte  proposta da administrao do hormnio para tratar o excesso de peso em humanos, escreveram os pesquisadores.

Seus colegas italianos identificaram mecanismos pelos quais ocorre o emagrecimento. Segundo experimento da Universit Politecnica delle Marche, entre outros efeitos, o hormnio reduz a ingesto de comida porque estimula a atividade de molculas envolvidas na supresso do apetite. Alm disso, outro trabalho, feito tambm na Itlia, demonstrou que a melatonina auxilia no controle da compulso por comer  noite. Experincia feita com um paciente tratado com a medicao agomelatina terminou com uma perda de 5,5 quilos aps trs meses de uso. Os desdobramentos desse tipo de estudo ajudaro a entender, por exemplo, por que os obesos tm menos melatonina do que as pessoas com peso normal.

No Brasil, o endocrinologista Bruno Halpern, coordenador da Liga de Diabetes do Hospital das Clnicas da Universidade de So Paulo (USP), est concluindo um projeto de pesquisa para investigar como se d a ao do hormnio sobre a gordura marrom, chamada de gordura que emagrece. Ela se deposita na regio do pescoo, abaixo da clavcula e ao longo da espinha e tem como funo gerar calor, o que  feito a partir da queima de calorias armazenadas   por essa razo que leva  perda de peso. O estudo ser feito com pessoas que produzem pouca melatonina. A ideia  comprovar a menor ativao do tecido marrom nessas condies, diz o mdico. Entre os indivduos com produo reduzida da substncia esto aqueles expostos a mais luz  noite.

J no Instituto de Cincias Biomdicas da USP, os estudos pretendem elucidar como a melatonina influencia o metabolismo energtico e repercute na manifestao da diabetes. Ela potencializa a ao da insulina, diz o pesquisador Jos Cipolla. A insulina  o hormnio que possibilita a entrada, nas clulas, da glicose circulante na corrente sangunea. Quando sua produo  baixa ou sua atuao  prejudicada, acumula-se acar no sangue, caracterizando a diabetes. A reduo da melatonina intensifica o quadro diabtico, completa o cientista brasileiro. Estudo da Universidade de Harvard (EUA), confirma a relao. Foram selecionadas 370 mulheres com diabetes tipo 2 e outras 370 saudveis. Nas portadoras da enfermidade, os nveis do hormnio eram significativamente menores.

Motivados por evidncias como essas, pesquisadores de cinco laboratrios internacionais criaram a rede MELABETES. Uma das metas  aprofundar as investigaes, principalmente sobre o que leva alguns pacientes diabticos a apresentarem menor concentrao de melatonina. Podemos ajudar essas pessoas dando a elas suplementos do hormnio, explicou  ISTO Ralf Jockers, da Universit Paris Descartes, na Frana, organizador da iniciativa. Mas isso deve ser feito em conjunto com o mdico.

No laboratrio comandado pela pesquisadora Regina Markus, na USP, descreveu-se que a melatonina pode ser um dos motivos dos benefcios da amamentao. Encontrei uma maneira de medir sua concentrao no leite materno. Descobrimos que uma das principais razes da importncia do aleitamento materno  que, por meio dele, a melatonina passa de me para filho, diz Regina.

No Brasil, o hormnio no possui registro de comercializao na Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria. Mas no  proibido, o paciente pode import-lo. No entanto, os cientistas defendem sua maior disponibilidade por aqui. Temos todas as evidncias para que ela seja utilizada e vendida no Pas, diz Regina Markus. Ela deveria ser comercializada ao menos como remdio, diz Mario Peres.  necessrio que seja suplementada no idoso, j que sua produo diminui com a idade, diz Jos Cipolla.

ACESSO - O cientista Cipolla defende que seja feita uma suplementao para as pessoas mais velhas

Por enquanto, no  o que pensa o Conselho Federal de Medicina. A entidade faz uma restrio ao seu uso como recurso antienvelhecimento. Publicou uma resoluo na qual determina que so vedados no exerccio da medicina alguns recursos antienvelhecimento usados com a finalidade de triagem, diagnstico ou acompanhamento de doenas relacionadas ao envelhecimento. Entre eles est a melatonina. O mdico que desobedecer a norma pode ser advertido ou at perder o registro profissional. No h evidncia cientfica do efeito antienvelhecimento da melatonina. Os estudos so experimentais, diz Rubens Frana, membro do CFM.

Na opinio de mdicos atualizados, que acompanham de perto os avanos sobre o tema, isso no  verdade.  o momento de se repensar o potencial teraputico da melatonina. Ele  muito grande.  hora de reabilit-la no arsenal de tratamento, afirma o psiquiatra e psicofarmacologista Sergio Klepacz, de So Paulo, autor do livro Equilbrio Hormonal e Qualidade de Vida. Na Europa e nos EUA, esse poder j foi reconhecido h algum tempo. No continente europeu, o hormnio  vendido como remdio e, nos Estados Unidos, como suplemento alimentar.


